Memórias…
«A Memória é como um saco de retalhos, feito de pedacinhos de Dor, retalhinhos de Sonho, remendinhos de Esperança....»
Fernanda de Castro

A esse saco vou eu buscar muito sonho e muita esperança.
Deixo ficar a Dor.
Sonho que começou há mais de 50 anos, e Esperança, que sempre me acompanhou.
Reportemo-nos ao ano de 1937, ano em que vim para
Anadia e em que com mais três amigos fundámos o Colégio Nacional de Anadia. Eram esses amigos o
Dr. António Morais de Castro vindo de Trás-os-Montes;
o professor Marques Vidal vizinho de Avelãs de Caminho;
o Senhor Adriano de Sousa Oliveira, bairradino, residente em Anadia,
e eu, Albertina Valentim Oliveiros, chegada de Lisboa, recém casada, para vir aqui criar raízes.
Alonguei-me a tão recuados tempos, porque foi, precisamente, no Colégio Nacional de Anadia, que,
no ano lectivo de 1974/75, começou a funcionar a Escola Secundária de Anadia — a vossa Escola.
O Colégio começou pequenino, com pouco mais do que uma dúzia de alunos e instalado numa casa das mais lindas da vila, mas que hoje já não existe — a Quinta do Capitão-Mór — no, então, Largo do Cabecinho e que pertencia à Senhora Dona Laura Cancella, avó do escritor Luís de Stau Monteiro. No lugar da casa e da Quinta está, hoje um bloco habitacional, julgo que também com o nome de Capitão-Mór; o Largo é actualmente Largo do Dr. António Costa e Almeida. O Colégio foi crescendo e muitas gerações de rapazes — era exclusivamente masculino - o frequentaram e nele formaram as suas mentalidades e receberam os princípios básicos da sua cultura e educação. Durante muito tempo, não houve outro estabelecimento de ensino, onde pudessem adquirir a formação necessária, para frequentarem a Universidade ou terem uma formação profissional, que os habilitasse para a vida. Quantos não teriam sido o que foram e o que são, se não tivesse havido o Colégio!... até porque a falta de recursos económicos nunca impediu que o frequentassem ou que alguém deixasse de estudar… Por isso falei de sonho... No seu crescimento, conheceu três moradas, até chegar aqui a esta casa, nesta Avenida que tinha sido rasgada há pouco: a primeira, a que já me referi; depois, na Avenida José Luciano de Castro, num prédio que hoje é residência do Senhor Justino Pereira Alegre; e ainda depois, na actual Casa das Irmãs da Sagrada Família. Só em 1948, ficou definitivamente instalado neste edifício próprio, sendo considerado um dos maiores e mais bem apetrechados Colégios do País. Foram Directores, por ordem cronológica: o Dr. Morais de Castro, o Dr. Teófilo Cruz, o Dr. Mário Mendes, e, desde 1952, eu, a única que ainda vive dos que o fundaram e dirigiram. De 1971/72 a 1973/75, funcionou, já a nível de ensino oficial, mas como Secção Liceal do Liceu D. Duarte, de Coimbra e apenas com o Curso Geral, tendo estado parte do edifício — o Externato — arrendado à Câmara Municipal de Anadia. Nas instalações do Internato, estiveram em funcionamento os Cursos Complementares de Letras e Ciências do Colégio e a Residência Nuno Álvares do Instituto de Acção Social Escolar, I. A S. E. até à sua definitiva instalação, após as obras de adaptação necessárias no edifício que fora construído para a Escola Preparatória José Luciano de Castro e onde ainda se encontra. Fui a Directora dessa Residência ainda durante mais de dois anos. Em 1974/75 o Colégio Nacional de Anadia foi entregue, por venda, ao Ministério da Educação, para nele funcionar a Escola Secundária de Anadia, onde continuei a dar aulas. Congratulo-me por ver realizado aquilo por que lutei e em que sempre tive esperança: existir, em Anadia, um estabelecimento de Ensino, em que todos os jovens, independentemente das suas condições económicas e sociais, tivessem as mesmas oportunidades de acesso ao ensino e à cultura. O sonho realizou-se; da esperança… resta um nome.
ALBERTINA OLIVEIROS 2 de Março de 1989 In Jornal da Escola Secundária de Anadia, “Diálogo”, Abril de 1989 (cópia gentilmente cedida pelo Professor Doutor Pereira Vinhal, ex-docente desta Escola)